quinta-feira, 30 de abril de 2015

O "SER" ADOLESCENTE
Afetividade - Sexualidade - Respeito


 É cada vez mais comprometedora a situação dos nossos adolescentes no que diz respeito à sexualidade e à afetividade. Uma grande confusão é provocada em suas mentes pelas informações que a mídia fornece. Desde a música até nas telenovelas, pululam estímulos sexuais sem qualquer senso de moralidade ou compromisso com a decência. E este é o contexto em que tentamos educar nossos filhos e ajudá-los a atravessar a fase da adolescência, sem que se contaminem ou sucumbam a esses apelos. 

 Por esse motivo usei a palavra “comprometedora”, no início do parágrafo anterior. É porque cada vez mais somos chamados a enfrentar com os jovens e adolescentes este desafio que é saber filtrar o que é importante, o que tem valor e o que não será prejudicial ao seu crescimento. Muitos pais perdem grandes oportunidades porque se posicionam como rivais dos seus filhos na adolescência, e, assim como, peculiarmente, os adolescentes estão sempre discordando, os pais se armam para ter sempre um discurso de repreensão e autoritário. Não se trata de enfrentar “os” adolescentes nesta fase, mas, repito, enfrentar “com os” adolescentes esta fase da vida. 

 É que este período, o da adolescência, é aquele tão esperado por uma parcela de jovens e ao mesmo tempo tão temido por uma parcela grande dos pais. É a hora de ganhar o mundo, sair de casa, fazer e conhecer coisas novas. É a hora da pseudo independência. E é temido pelos pais justamente porque torna-se grande a dificuldade de manter o controle sobre seus filhos. 

 O que os adultos esquecem – sim, esquecem, porque todos já passaram por isso – é que este é um período extremamente crítico na vida de um ser humano. Basicamente três grandes questões tornam-se foco do jovem: 1ª – Quem sou, do que eu gosto, o que eu quero (ou não quero) da vida, o que eu quero ser? 2ª – Descobertas no campo sexual, alegrias, frustrações, primeiras experiências... 3ª – Escolha profissional, continuidade dos estudos, competição do mercado de trabalho. 

 Para enfrentar essa jornada, o jovem precisa encontrar seu caminho, que é único, só dele. E é exatamente neste processo que ocorre o distanciamento dos pais e os constantes e inevitáveis choques. 

 Nesta fase também há o risco de o jovem ingressar no consumo de drogas ou álcool. 

 E o jovem, mesmo que não perceba, tem consciência de tudo isso. E eles tem coragem e energia para encarar a adolescência de peito aberto, a começar pelas experiências afetivas e sexuais. 

 Particularmente acredito que os adultos poupariam muita energia e evitariam muitos conflitos se buscassem sintetizar seu trabalho de educação em poucas coisas importantes. De nada adianta gerar debates intermináveis e querer que o adolescente se comporte exatamente da sua maneira. Basta focar em questões práticas e indiscutíveis. Uma delas, a meu ver, é o respeito. 

 Na cartilha educacional dos pais de adolescentes esta palavra deveria fazer parte de todos os capítulos. Orientar o jovem para que respeite a si mesmo como pessoa, que respeite seus desejos, suas ideias, suas convicções, seus limites, enfim, sua essência. E somado a isso, o respeito ao próximo, à pessoa que está a seu lado, seja um amigo ou namorado. E tem que respeitar no outro tudo aquilo que deve respeitar em si mesmo. Talvez esse seja o grande segredo para um relacionamento feliz, prazeroso e maduro, que promova o crescimento próprio e mútuo. 

 A partir do momento em que os pais limitarem-se a orientar nesse sentido, a apontarem esta meta, a do respeito, e a partir do momento em que os adolescentes e jovens concentrarem seus esforços e atenção nesta prática, muita coisa será diferente. Os apelos externos não terão mais tanta força para confundi-los e perdê-los, e aquela seleção que deve ser feita em relação aos estímulos da mídia, será mais criteriosa e eficaz. 

 Afetividade e Sexualidade: duas peças fundamentais na construção de um ser humano, que são disponibilizadas num período que requer tanto cuidado e atenção: a adolescência. 

 Uma pessoa que é bem orientada e resolvida afetiva e sexualmente na juventude, inequivocadamente será uma pessoa assídua na prática do respeito, da compreensão e que saberá viver os bons momentos da vida (e os não tão bons também) com clareza de ideias e discernimento.

Autor: Anselmo J Ramos Neto

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O surgimento das ideologias anticristãs


Hoje, mais do que nunca, é preciso compreender que existem ideologias interessadas na destruição da Igreja. Um exemplo claro de uma intenção ideológica é a própria historiografia recente da Igreja. É muito fácil notar que existe um preconceito contra a Igreja e ele foi confeccionado ideologicamente por um grupo de intelectuais, filósofos iluministas franceses do século XVIII e XIX.
A Revolução Francesa (1789) não foi um fenômeno espontâneo, pelo contrário, foi preparada tanto política quanto ideologicamente. Para compreendê-la é preciso estudar o que a antecedeu e os seus bastidores. Comprovadamente, existe uma vasta documentação dando conta que pseudointelectuais, falsos filósofos foram "comprados" por um grupo de banqueiros, a então chamada 'burguesia', para criar um movimento ideológico que tornasse possível a derrubada da monarquia, pois não havia outro modo de eles chegarem ao poder.
Os falsos filósofos criaram uma rede de mentiras, notadamente contra a Igreja Católica, os jesuítas, o rei, a nobreza etc, fabricando um clima de insatisfação e revolta, utilizando a literatura como meio de propagação das mentiras. Como foi dito, esse movimento foi criado artificialmente mediante a injeção de dinheiro, contudo, alguns pensadores acreditaram sinceramente no movimento falso de revolta, como foi o caso de Jean Jacques Rousseau, o qual não se tem notícia de que tenha recebido qualquer quantia da dita "burguesia", mas que, no entanto, foi um dos melhores ideólogos desse movimento.
O início do movimento, portanto, foi dado por filósofos medíocres, mas a continuidade dele foi feita por filósofos sérios que passaram a trabalhar para a derrocada da monarquia e da Igreja. Dentro da ideologia Iluminista, portanto, está embutida toda uma maneira de se contar a história que não é aquela acontecida, mas feita de modo que instaure a revolução, que mude o status quo.
Naquela época, a imprensa acabara de ser inaugurada, os jornais eram raros. Mas, uma técnica bem sucedida, inventada por Christoph Friedrich Nicolai, cuidou de propagar com sucesso a ideologia iluminista: as feiras de livros. Com o crescente interesse da população pelos livros, Nicolai passou a organizar as feiras, porém, selecionava os livros que seriam postos à venda, p. ex., se o livro era contra a Igreja, contra a monarquia, se ele pregava o materialismo, o ateísmo era escolhido, caso contrário, não. Isso fomentou o movimento revolucionário.
Historicamente, sabe-se que o rei da França convocou os Estados Gerais, o parlamento, para resolver um problema referente aos impostos, pois a Coroa estava indo à falência. Uma vez reunidos, surpreendentemente, os representantes dos Estados franceses passaram a redigir uma Constituição, planejando a derrocada da monarquia.
Deste modo, por causa das técnicas aplicadas: investimento em escritores para que produzissem material contrário à Igreja e à monarquia, e a difusão desses livros nas feiras idealizadas por Friedrich Nicolai, contribuiram de maneira decisiva para o surgimento desse fenômeno artifical, em vigor até hoje, que tem por objetivo denegrir a Igreja Católica.
Outro ponto a ser frisado é que em qualquer livro de História existem divisões, classificações das épocas. Essas divisões foram estabelecidas justamente durante o Iluminismo, portanto, imbuídas de ideologia. Cada título atribuído aos períodos da História traz nele mesmo uma valência ideológica: Idade Antiga e Idade Moderna. Entre uma e outra, um período de mais ou menos mil anos no qual o Cristianismo desempenhou um papel fundamental na história do Ocidente.
Com a queda do Império Romano do Ocidente, no século V, após o que a barbárie tomou conta, a Igreja tornou-se a referência cultural na Europa até a queda do Império Romano do Oriente. Ideológicamente era preciso "matar" esse período. Por isso recebeu o nome de "Idade Média", em que havia a razão na Antiguidade, com seus grandes filósofos, seguido por um período de trevas, na qual a razão foi substituída pela superstição, pelas trevas, pelo cristianismo. A partir do século XV, quando ressurge o paganismo, em substituição gradual ao cristianismo, o nome que se dá é "Renascimento", seguido pelo século das Luzes, no qual a Deusa Razão triunfa e surge o Iluminismo.
Ora, esse tipo de historiografia pode ser tudo, menos algo isento, equilibrado. É pura ideologia. Régine Pernoud, grande historiadora medievalista, fala com toda clareza o quanto a Idade Média foi uma época de extraordinário desenvolvimento em inúmeros aspectos. Notadamente na situação da mulher na sociedade que durante toda a Idade Antiga nada mais era uma "coisa", propriedade do pater familias, do pai de família, do marido, o qual tinha o poder de matá-la, caso não estivesse satisfeito.
Ora, o cristianismo mudou radicalmente essa visão. Nele, a mulher adquiriu dignidade semelhante a de seu esposo, aliás, estudos sérios comprovam que o cristianismo tornou-se popular justamente porque as mulheres perceberam que a conversão dos esposos os impedia de matá-las, por isso elas se empenhavam para que eles aderissem ao cristianismo.
Na Idade Antiga jamais se ouviu falar de uma mulher reinando, já na Idade Média ela era coroada junto com o Rei. Muitos feudos eram comandados por abades e muitos por abadessas. Foi o cristianismo que, olhando para a dignidade da mulher, colocou a Virgem Santíssima como Rainha do Céu e da Terra, fornecendo um instrumental espiritual para que se compreendesse a dignidade da mulher.
Como Renascimento a mulher é novamente coisificada perdendo a sua dignidade e importância, justamente por causa da volta do paganismo, da visão antiga, do pré-cristianismo. A esposa do Rei não é mais coroada como rainha, em geral, as mulheres se tornam objetos de desejo sexual, inclusive escravas, pois foi justamente no Renascimento que a prática escravagista retornou. Na Idade Média não havia escravos, mas tão-somente o servo da gleba, que não era propriedade do senhor feudal, mas mantinha com ele uma aliança: impostos em troca de proteção militar.
Portanto, o Renascimento significou um apagar-se das luzes e não um retorno das luzes. Apagaram-se as luzes dos valores cristão que plasmaram toda a cultura da Idade Média. É preciso, deste modo, entender que toda a historiografia contrária à Igreja Católica foi confeccionada quase que totalmente por várias ideologias cuja finalidade era e é derrubar a Igreja, detendo a influência dos valores cristãos na sociedade, a fim de dar trela livre ao paganismo que reina na cultura atual.
Precisamos conhecer uma história da Igreja baseada na verdade dos fatos, dentro de uma acurácia, uma precisão dos fatos históricos relatados enquanto tal, e depois, uma interpretação desses fatos à luz da fé. Mesmo quando a verdade histórica for dolorosa, pecados de papas, infidelidades, traições, heresias, lutas internas, tudo isso deve ser conhecido, mas sempre tendo em vista a Igreja de Cristo que, justamente por ser "a Igreja de Cristo", desde o início é perseguida até mesmo internamente.
A carne, o mundo e o demônio são os três inimigos do homens e também da Igreja. Existe a força da concupiscência nos membros da Igreja, existe a mundanidade dentro da Igreja e também existe a ação demoníaca. Mas não só isso, existe a ação do Espírito Santo, a presença de Graça, a certeza de que Deus conduz a sua Igreja. Nosso Senhor Jesus Cristo previa isso na Última Ceia: "odiaram a mim, odiarão também a vós", (conf. Jo 15,18).
Conhecer a História da Igreja é conhecer o amor de Deus na história da humanidade, mas também o ódio que marcou e ainda marca a Esposa de Cristo, chagada, que segue o caminho de seu divino fundador: a Sua Paixão e Crucifixão. A esperança do cristão é de que haverá um dia a ressurreição e se verá a Esposa descer do alto, quando então todos serão um só com Cristo. Será a escatologia, o fim da história da humanidade e o fim da História da Igreja.

Fonte: Pe Paulo Ricardo de Azevedo Junior

sábado, 3 de janeiro de 2015

JOVENS CONECTADOS

Quando você quiser informações sobre o trabalho pastoral com a Juventude a nível nacional (CNBB) acesse o site www.jovensconectados.org.br. Este é o canal da CNBB para a juventude no Brasil. Além do site existe também a fanpage “Jovens Conectados” no Facebook.
Portanto, se você desenvolve qualquer trabalho pastoral com a juventude em sua comunidade, paróquia ou diocese, você não pode estar desconectado desses dois canais, porque é ali o ambiente onde podemos partilhar os trabalhos que realizamos e conhecer outros trabalhos feitos Brasil afora (e fora do Brasil). Então, curta a página no facebook e adicione o site aos seus favoritos.

Mas por que toda essa propaganda sobre os “jovens conectados”?

É que nas minhas frequentes visitas ao site e nas constantes inserções no meu feed de notícias do facebook, tenho conhecido quanto trabalho frutífero vem acontecendo no nosso país, protagonizado pela nossa juventude. Iniciativas que vão de encontro a tudo o que os últimos papas exortaram nas JMJs e, mais atualmente, ao que o Papa Francisco pede na Evangelii Gaudium.

E (detalhe interessante) quase a totalidade dessas iniciativas não partem lá de cima (CNBB), mas são sementes plantadas num canteiro bem menor – as comunidades paroquiais, de onde suas mudas são compartilhadas com outras e outras comunidades, até atingirem um vulto bem maior, e serem acolhidas pela instância maior e sugeridas a todos os recônditos paroquiais do país.

Isso derruba por terra o argumento de alguns de que: “não podemos fazer muita coisa, pois temos que esperar as orientações do nacional”. É claro que temos que estar em comunhão com as instâncias superiores (diocese, regional e CNBB), da mesma forma que não podemos deixar de lado  nossos projetos para uma Igreja mais missionária e acolhedora, na angustiante e exaustiva espera gerada por uma burocracia desnecessária ou pela inércia de agentes dessas instâncias superiores. Esta espera por vezes contribui para que percamos o ardor missionário e a alegria da evangelização.

Minha intenção ao escrever este artigo é semelhante a dos artigos anteriores: atentarmo-nos à responsabilidade que temos com a evangelização da juventude, e de como estamos deixando passar um tempo propício para uma pesca substancial, mantendo-nos no conforto e segurança da margem, sem vontade ou coragem de avançarmos para as águas mais profundas. Este conforto e segurança se contrapõem ao que o próprio evangelho propõe, ao mesmo tempo em que testemunha contra nós, pois mostra como evitamos os desafios da nova evangelização e as intempéries de um mar desconhecido.

Será que o Cristo que vive em nós (Gl 2, 20) ou o Espírito Santo que habita em cada um (1Cor 6, 19) podem se render à nossa estagnação e ao nosso medo?

Entretanto, tenho visto nos últimos anos, com alegria, o empenho e o trabalho de alguns agentes que se dedicam ao trabalho com a juventude, as boas intenções e os belos projetos. Mas tenho visto também a dificuldade que encontram pelo caminho, principalmente no que tange à realização desses projetos, quer por falta de parceria de outros setores e pastorais, quer (o que é pior) pela pouca atenção de alguns pastores.  Volto a citar o apóstolo dos gentios, quando ele indaga aos coríntios (1Cor 1, 13) se Cristo está dividido, ou se não fazemos todos parte de um mesmo e grandioso projeto.

Não deixemos que os pequenos interesses de cada segmento comprometam o interesse maior e comum, mas unamo-nos quais membros de um mesmo corpo em benefício da vida da Igreja. E aqueles que tem o múnus de pastorear o rebanho, não poupem esforços e recursos para proporcionar a realização de toda e qualquer atividade que tenha como objetivo o anúncio de Cristo.

E aos agentes que dirigem e orientam os trabalhos com a juventude, vale a pena convidar a rever alguns trabalhos e seus frutos. Pelas mídias sociais é possível perceber a formação de pequenos clãs ou tribos, tipo “família AT”, “família ZJ”, ou “família FJ”, ou outras. Isso é bom e salutar desde que não se preste ao infeliz propósito de provocar divisão e contenda intra eclesial, mas que, ao contrário, se constituam em pequenos organismos que, em unidade, promovam a inculturação cristã nas diversas realidades juvenis.

Que 2015 seja o ano em que as pequenas (porém em constante crescimento) famílias juvenis, pastorais e movimentos diversos, orientadores, assessores e pastores, iluminados única e exclusivamente pelo Evangelho do próprio Cristo, possam estar unidos olhando não só para o chão em que pisam (seu próprio “quadrado”), mas ao horizonte da história, que se delineia a cada dia diante de nós com suas mais intrigantes e desafiadoras peculiaridades. Que sejamos uma Igreja em saída (a convite do Papa) nem sempre para os mesmos, conhecidos e confortáveis lugares, mas para as periferias, onde estão principalmente aqueles cuja proximidade nem sempre nos agrada. É lá que Cristo quer estar, e precisa de nós para que O levemos.

Inspiremo-nos e copiemos tantas e belas iniciativas existente pelo nosso país. Desliguemo-nos um pouco da mesmice de todo ano (mesmos discursos, mesmos eventos...) e engajemo-nos em novos trabalhos, novas experiências de vida e evangelização.


E que o Espírito Santo nos conduza a todos, pela vontade soberana do Pai.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

EVANGELII GAUDIUM  -  A ALEGRIA DO EVANGELHO
 SEGUNDA PARTE


A primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco fala da Alegria do Evangelho de Cristo; alegria que se renova e comunica, conforta e suaviza a vida, e que deve ser anunciada mesmo em meio às crises dos tempos atuais.

                Continuando a ler a EVANGELII GAUDIUM, chegamos ao segundo capítulo desta exortação, onde o Papa Francisco nos fala das “crises do compromisso comunitário”. Neste capítulo, “antes de falar de algumas questões fundamentais à ação evangelizadora” – EG 2 - I, 50, o Santo Padre nos convida a um olhar com discernimento evangélico para o contexto social e religioso em que vivemos.  


                Somos convidados, por exemplo, a testemunhar o amor e a misericórdia de Deus em meio a uma grande quantidade de desafios no mundo atual, como a ditadura de uma economia excludente e geradora de desigualdade social, onde é “mais notória a queda da Bolsa de Valores do que a morte por enregelamento de um idoso” – EG 2 - I, 53; ou ainda a nova idolatria do dinheiro, cujo domínio é aceito pacificamente por nós e nossas sociedades, quando a dívida e os respectivos juros “afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia” – EG 2 - I, 56. O dinheiro que deveria estar a serviço, é o que governa, colocando Deus como rival de todo um processo de manipulação e degradação do ser humano, criatura amada e a quem Deus planejou a plena realização e independência. 

               O domínio financeiro faz esquecer os grandes ensinamentos que fazem parte da Tradição Católica, como o de São João Crisóstomo que dizia que “não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos” – EG 2 - I, 58.

                A desigualdade social gerada pela ditadura econômica é a causa do crescimento da violência a patamares inacessíveis, tornando-se portanto incontrolável. A segregação social dos grandes centros destrói a tranquilidade, devido à reação violenta daqueles que são marginalizados.

                O Santo Padre destaca ainda a necessidade de evangelizarmos em meio aos desafios culturais, que em certas partes do mundo ainda se apresentam como “verdadeiros ataques à liberdade religiosa ou em novas situações de perseguição aos cristãos” – EG 2 - I, 61. Este tipo de manifestação prejudica toda a vida social, além da religiosa, pois desorienta os cidadãos a engajarem-se em ações em prol do bem comum.

                Mesmo a fé católica enfrenta a realidade da proliferação de novos movimentos religiosos. Estes dividem-se de acordo com suas propostas: uns tendem ao fundamentalismo e outros a uma espiritualidade sem Deus. De um ou de outro modo, reage-se contra o mundo materialista, consumista e individualista, porém sem preencher o vazio deixado pelo racionalismo secularista.

                Entretanto o Papa também alerta para um grande perigo existente dentro da Igreja Católica, que é a “existência de estruturas com caráter pouco acolhedor, em algumas de  nossas paróquias, ou à atitude burocrática com que se dá a resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida dos nossos povos. Em muitas partes, predomina o aspecto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização”. – EG 2 - I, 63.

                Um outro desafio que os cristãos são convidados pelo Papa  a enfrentar, é o da inculturação da fé. Não podemos cair na armadilha da transculturalidade, que é adaptar o evangelho e a tradição da Igreja às realidades  existentes. Não é o evangelho que precisa ser inculturado, mas as culturas que devem ser evangelizadas, para fortalecer as riquezas que essas culturas já possuem.


                E por último o Papa atenta sobre os desafios das culturas urbanas, convidando-nos a não aceitarmos a ditadura das novas linguagens que vão surgindo dentro de cada sociedade, mas a protagonizarmos uma “evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite valores fundamentais”. EG 2 – I, 74.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

EVANGELII GAUDIUM  -  A ALEGRIA DO EVANGELHO


 “A alegria do evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”.

                Com estas palavras o Papa Francisco inicia sua primeira Exortação Apostólica, intitulada Evangelii Gaudium, em latim, A Alegria do Evangelho. No documento, dividido em cinco capítulos, o Papa discorre sobre a Transformação Missionária da Igreja, a Crise no Compromisso Comunitário, o Anúncio do Evangelho, a Dimensão Social da Evangelização e dos Evangelizadores com Espírito.

                No primeiro capítulo o Papa nos convida a sermos uma “Igreja em saída”, e destaca que a alegria do evangelho é uma alegria missionária. O Evangelho, enquanto Palavra de Deus, tem vida própria e não pode ficar confinado, mas deve ser espalhado, semeado. E “a Igreja deve aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando nossa previsões e quebrando nossos esquemas” – EG I, 22. Nesse sentido, a comunidade missionária deve perder completamente o medo e se despir definitivamente de seus preconceitos e “ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos” – EG I, 24.

                Entretanto, conforme o própria Papa exorta, para que esta saída aconteça, faz-se necessário uma urgente conversão pastoral, uma inadiável renovação eclesial. Igreja em saída significa também, para o Papa, sair das comodidades pastorais em que estamos mergulhados, ter como ponto de partida o coração do Evangelho, que mostra o Cristo peregrino, o Cristo misericordioso. Da mesma forma também nós somos convidados à prática desta, que é a maior de todas as virtudes – a misericórdia.

                Mas o Papa também entende o quanto as limitações que a natureza humana nos impõe podem comprometer esta saída missionária. Por isso ele discorre longamente sobre isso, mostrando que a missão se encarna na limitação humana, mas é realizada com pequenos passos em meio a tudo isso. Como missionários do amor de Deus, precisamos aprender que esse amor “opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas” – EG I, 44.

                Encerrando o primeiro capítulo, o Papa nos lembra que a Igreja “em saída” é como uma mãe de coração aberto. “Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, deixar de lado a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldades”. – EG I, 46.

                Nesse sentido, por razão nenhuma e em qualquer circunstância, a Igreja deve fechar qualquer fresta que possa permitir a entrada primeira ou o retorno de um irmão. E no rol de portas destaca-se o Batismo, a Eucaristia e a Penitência. O primeiro, porque é a porta para todos os outros sacramentos; o segundo – a Eucaristia – porque, segundo Santo Ambrósio de Milão, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso para os fracos; o terceiro – Penitência – porque é o sacramento da misericórdia de Deus, que não tem memória para os nossos pecados, e nos resgata pelo sangue de Seu Filho.

                Ler a Evangelii Gaudium é conhecer um pouco do pensamento do Papa Francisco, que norteia seu pontificado no amor misericordioso de Jesus e na essência missionária da Igreja.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SETEMBRO - MÊS DA BÍBLIA

Entrevista concedida por nosso bispo, Dom João Francisco Salm, ao programa "Anunciando a Boa Nova", da RWCTV, falando sobre o mês de setembro, que é o segundo mês temático do ano, dedicado à Sagrada Escritura. Nesta entrevista, Dom João nos ensina os passos para a leitura orante da Bíblia (Lectio Divina)


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

FALANDO SOBRE A PASTORAL CATEQUÉTICA

          Na época em que eu atuava como ministro da catequese (catequista), não era raro ouvir nos encontros de formação ou reuniões, o recado de que “devíamos nos abastecer com os documentos da Igreja sobre a catequese”. Dois desses documentos eram os mais propostos: O Catequese Renovada e o Diretório Nacional da Catequese, ambos da CNBB.

          Como ler para mim nunca custou nada, me muni desses dois textos e fui lê-los. E o que constatei é fantástico, embora preocupante.

          Mas antes de discorrer sobre minha constatação, gostaria de citar alguns trechos desses documentos, e de um outro que me chegou às mãos no mesmo período, nos quais encontro fundamentação para o que vou escrever.

“Esta sociedade, marcada também pelos ateísmos práticos e teórico-militantes, por diversos tipos de neopaganismo, pelas formas fanáticas e sectárias de religiosidade de origem recente e pelo indiferentismo religioso, precisará também de um tipo de catequese que, além de uma sólida fundamentação da fé, seja capaz de ajudar o cristão a converter-se e a comprometer-se no seio de uma comunidade cristã para a transformação do mundo” (Catequese Renovada, 19)

“[...] todo roteiro catequético deverá incluir estímulos e orientações com vista a uma leitura da Bíblia, segundo um plano adequado à idade e às condições culturais do leitor. O plano deve favorecer uma leitura interessante, viva, com acesso direto aos textos, ajudando a compreensão da mensagem, assim como o Magistério da Igreja a interpreta” (Catequese Renovada, 40)

“Pode-se falar também de adaptação do conteúdo. [...]Adaptação significa levar em conta as condições históricas e culturais dos catequizandos. A integridade do conteúdo pode e deve ser comunicada numa linguagem adequada aos homens de hoje: pois uma coisa é o depósito e as verdade da fé, outra é a maneira com que são enunciadas, embora o significado e o sentido profundos permaneçam os mesmos. [...] As situações históricas e as aspirações autenticamente humanas são parte indispensável do conteúdo da catequese.” (Catequese Renovada, 101-4º)

“O conteúdo da catequese compreende dois elementos que interagem: a experiência da vida e a formulação da fé. A afirmação do princípio de interação é a recusa tanto do excesso da teoria desligada da realidade, quanto do dualismo que desvaloriza as necessidades do aqui e agora, da vida terrena dos filhos de Deus”. (Diretório Nacional da Catequese, 13 – i)

“[...]garantir material didático moderno (internet) na formação das crianças e jovens, abrindo espaços interativos entre catequistas e catequizandos, através de fóruns de discussão, busca de informações, divulgação de notícias da catequese e da igreja, etc.; proporcionar encontros de catequese em ambientes adequados e com utilização de equipamentos atualizados e, às vezes, em ambientes abertos; terminar os encontros com atos celebrativos e com metas para o agir cristão, que ampliem o conteúdo estudado; criar momentos de integração entre pais, catequizandos e catequistas[...]” (Plano Diocesano de Pastoral (2011-2020) Diocese de Tubarão, 110)

        Contrapondo os textos expostos acima à nossa práxis catequética, resta claro e inequívoco a urgente necessidade de uma total reestruturação nesta que deve ser a maior de todas as preocupações na caminhada pastoral da igreja.

         É na catequese que, nos dias atuais, o indivíduo tem o primeiro contato com a igreja e com Jesus Cristo. E esta primeira impressão deve causar o impacto necessário para que durante toda a sua vida este indivíduo não cesse de buscar caminhar com Jesus, através da Sua igreja.

     Entretanto, é gritante o número de crianças e adolescentes em nossas comunidades desprovidos de conhecimento bíblico e religioso. Mesmo os que frequentam a catequese demonstram uma grande tibieza (e às vezes até aversão) quando o assunto é religião e igreja.

        Não raro são os que, num determinado instante da vida e na busca por algum conhecimento e respostas, enveredam por caminhos protestantes e espíritas, tornando-se ainda ferozes agressores ao catolicismo.

      Algumas pessoas, em resposta a argumentos como o acima, defendem o discurso do “mais qualidade e menos quantidade”. Com base no que nos transmite a história eclesiástica, eu entendo que não era bem essa a intenção dos apóstolos e primeiros evangelizadores, já que não se limitaram em apenas qualificar o pequeno grupo judeu-cristão, mas lançaram-se a todos os lugares aumentando a quantidade daqueles que podiam ser (e eram) qualificados. Não copiarei citações da Evangelii Gaudium, mas quero mencioná-la para lembrar o quanto o Santo Padre, o Papa Francisco, insiste nesta obra, de atrair pessoas para Cristo.

         - Mas, Anselmo, os tempos hoje são outros!

         E talvez esta seja a maior de todas as justificativas para que renovemos nosso jeito de fazer catequese. Estamos vivendo um tempo de mudanças e ao mesmo tempo uma mudança de época. Se não formos competentes e intrépidos no ensino e na prática cristã hoje, em pouco tempo estaremos nos contentando com um pequeno grupo de pseudo qualificados em nossas paróquias.

         - Talvez nossos catequistas devessem fazer um trabalho melhor, Anselmo.

         Não coloquemos um fardo tão pesado sobre os ombros desses homens e mulheres que voluntária e caridosamente se dedicam a fazer mais do que sabem para educar nossas crianças e adolescentes na fé. Não gosto de utilizar o termo “culpa”, mas “responsabilidade”. E, como pai e catequista, atribuo a responsabilidade não aos ministros da catequese que estão “em sala”, mas às pessoas que lideram a pastoral catequética nas paróquias, comarcas e diocese; muitos destes deveriam ainda estar vivendo a prática da catequese junto às crianças e adolescentes, para assim poderem constantemente reavaliar os métodos e materiais didáticos utilizados. É só através do contato e da vivência da realidade do catequizando, que pode-se fazer a necessária e eficaz adaptação de conteúdo de que fala o documento Catequese Renovada no Art. 101, 4º.

         - Você tem a solução, então?

         Não, não tenho A solução. Até porque num trabalho tão abrangente como é a catequese, a solução não deve partir nunca de uma única pessoa ou um pequeno grupo. Há que se ter uma macro visão, ouvir todas as partes envolvidas (catequistas em sala, pais, catequizandos, outras lideranças).

         Não, eu não tenho A solução. Mas posso elencar alguns procedimentos que deveriam ser revistos.

         1º – Idade de Ingresso na Catequese
        
Durante muito tempo a idade mínima para que a criança pudesse ingressar na catequese em nossa diocese era a de nove anos completos.

Importante destacar aqui a radical cobrança dos coordenadores sobre este “detalhe”: a criança deveria ter completado nove anos até o dia 31 de dezembro do ano anterior, ou seja, se a criança tivesse completado nove anos no dia 5 de janeiro de 2014, e mesmo que a catequese só fosse iniciar dali a dois meses (como ainda ocorre), a criança deveria esperar até o próximo ano (2015) para ingressar.

Segundo informações que recebi há alguns anos, houve uma sugestão para mudança dessa idade de nove para sete anos, entretanto devido a uma grande resistência, optou-se pelo meio-termo, oito anos.

Essa resistência indica o quão desinformadas estão nossas lideranças no que se refere à psicopedagogia.

Jean Piaget, um teórico do desenvolvimento humano, dividiu em quatro os períodos desse desenvolvimento. Segundo ele, cada período é caracterizado por aquilo que de melhor o indivíduo consegue fazer nessas faixas etárias. O segundo e o terceiro períodos correspondem à infância (2 a 6 anos – primeira infância, e 6 a 12 anos – infância propriamente dita).

“É no terceiro período (6 a 12 anos) que tem início a construção lógica, isto é, a capacidade da criança de estabelecer relações que permitam a coordenação de pontos de vista diferentes. [...]É neste período que a criança se torna capaz de cooperar com os outros, trabalhar em equipe, [...]ocorre o aparecimento da vontade como qualidade superior [...]os novos sentimentos morais são o respeito mútuo, a honestidade, o companheirismo e a justiça.” (FURTADO & BOCK – Psicologias Uma Introdução ao Estudo da Psicologia – 13º Ed – 1999 – p.103)

O início deste período, não coincidentemente, corresponde ao início do período escolar. É quando o universo da criança se expande do pequeno núcleo familiar para a grande comunidade chamada escola, onde a criança se depara com uma diversidade de pensamentos e comportamentos, além de começar a desenvolver suas aptidões intelectuais.

Não deveria também a igreja apropriar-se disso e proporcionar à criança já nesta idade de seis anos o início da sua formação cristã? Penso em quanto ganharíamos por não esperarmos que a criança, somente após dois ou três anos de experiência extra-familiar, fosse iniciada na caminhada de formação cristã. Até porque no atual contexto em que estamos inseridos, muito rapidamente as crianças estão se apropriando de conhecimentos que antes só iriam ter acesso após a adolescência, principalmente no que diz repeito às inovações tecnológicas, drogas e sexualidade.  

Houve uma época em que realmente a criança podia esperar até os nove anos para ir à catequese, porque ela já vivia uma experiência cristã na família, com as devoções dos pais e avós e a participação às celebrações. Mas hoje isso mudou; a prática religiosa dentro de muitas famílias é quase zero.
                                                                                                            
Hoje é preciso começar mais cedo, até porque, começando cedo torna-se possível desacelerar o ritmo, ampliar o conteúdo, organizá-lo de forma gradativa e repetir/reforçar o que for necessário, além de contribuir para um melhor aproveitamento da relação catequista / catequizando / família.

         2º - Paralelismo catequese / escola

Em 1989 o sociólogo francês Pierre Babin profetizava sobre a transformação da “escola-loja” (profesor de frente para os alunos) em “escola-mesa” (professores e alunos no mesmo plano, círculos). Passados 24 anos percebemos que na escola isso ainda não mudou.

E infelizmente a catequese continua imitando o sistema educacional ultrapassado também nesse aspecto. Não são raros os espaços de catequese montados de maneira idêntica a uma sala de aula: carteiras de frente a um quadro negro (ou branco) e uma mesa para o catequista (professor). Até o material didático é semelhante: livro (catecismo), caderno, lápis e borracha. A reprovação por frequência insuficiente também é uma cobrança feita aos catequistas.

O método de trabalho “em sala” em muitos casos ainda é bem parecido com o que ocorre na sala de aula: leitura do assunto no livro, exercícios no caderno e tarefa para casa.

As férias escolares também são imitadas na catequese, o que impede o acesso das crianças a uma catequese mais vivenciada sobre o natal.

Esse paralelismo contribui para que a criança veja na catequese uma extensão da escola, com todas as suas obrigações e imposições. O sabor da novidade que é o evangelho se perde devido à insípida forma de evangelização que é a catequese em muitas comunidades.

A única maneira de alterar esse status é mudar radicalmente os métodos de comunicação dentro da catequese, em todos os aspectos: horários, tempo de duração, formato das salas, ambiente, recursos (humanos e técnicos) e participação do catequista não mais como professor, mas como colaborador.

         3º - Comunicação na Catequese

         “Não basta usar os meios de comunicação para anunciar a mensagem cristã, é necessário integrar a mensagem nessa nova cultura, criada pelas modernas comunicações”. (Redemptoris Missio, 37)

Podemos dizer que dos 100% que compõe o nosso poder de comunicação, 80% vem do conhecimento do conteúdo; é o conhecimento técnico. Os 20% restantes são técnicas, mas sem estas a transmissão do conhecimento fica comprometida.

Antigamente os mestres (professores, padres, catequistas, etc.) mostravam e interpretavam a vida e a cultura e divulgavam isso cada um no seu campo de atuação. O início da comunicação em massa manteve um esquema conhecido como: UM PARA TODOS.*

Hoje qualquer um com simples ferramentas torna-se ponta do processo. Todos podem divulgar opiniões pessoais ou de grupos, promover mobilizações, levantar bandeiras, etc.. É o novo esquema, chamado TODOS PARA TODOS. Isso provocou mudanças culturais e criou uma nova cultura – a cultura midiática.*

Essa nova cultura produz o protagonismo, a valorização pessoal a visibilidade e exige criatividade.

E a igreja conhece tudo isso muito bem e até divulga nos seus documentos; um exemplo são as mensagens dos papas no Dia Internacional das Comunicações nos últimos anos. Todavia não as põe em prática na vida pastoral, principalmente litúrgica e catequética.

As crianças de hoje são da geração das mídias sociais e de relacionamento; e o que a catequese faz com essas ferramentas?

Sabemos que a família é a primeira catequese. É lá que a criança aprende os valores, a importância do diálogo e tem as primeiras noções sobre religiosidade. Entretanto grande parte das crianças que chegam à nossa catequese não vem de ambientes em que se viva essas práticas; alguns são órfãos de pai ou mãe, vivem com parentes, ou em ambientes de constante conflito onde Deus figura como alguém que não está nem aí para eles. Hoje, mais do que nunca, a catequese é responsável pelo primeiro anúncio e o primeiro contato, como já mencionei, da criança com a realidade religiosa.

Entretanto nossa maneira de comunicar isso não está atingindo seus objetivos.

Creio que já está na hora de a catequese se tornar um ambiente em que os catequizandos sejam agentes da própria formação, e o catequista funcione apenas como um facilitador deste processo. A igreja e os catequistas precisam dominar e facilitar o uso da linguagem das imagens (foto e vídeo), das mídias de relacionamento, da linguagem (gíria) das crianças e adolescentes.

Estatisticamente sabe-se o seguinte:
·         Uma pessoa retém 10% do que lê;
·         26% do que escuta;
·         30% do que vê;
·         70% do que vê e escuta;
·         70% do que discute com os outros;
·         80% do que aprende experimentando;
·         90% do que explica para os outros;
·         95% do que ensina para os outros;

Considerando isso, ao permitir que o catequizando se torne protagonista da sua própria evangelização, permitimos que ele absorva muito mais as verdades da fé e o ensinamento da igreja, do que realmente ele absorve apenas sentado ouvindo.

         Quanto ao catequista, não deve ter medo de arriscar. Deve ser ousado. E não esquecer que sua presença deve ser sempre oportuna e segura. Ele deve incentivar para que o conhecimento seja partilhado (eles não conhecem e vão pesquisar na internet, documentos, visitas, entrevistas, Bíblia) e depois partilham entre si das formas mais diversificadas possíveis (fotos, vídeos, encenações, músicas, posts em redes sociais, etc.). É também um meio de despertar na criança a consciência sobre o uso sadio da ferramenta internet.

*Parte do texto foi extraída do seminário “Comunicação e Catequese” apresentado no 1º MUTICOM do Regional Sul IV, em Joinville, em maio/2011.

         4º - Valorização dos Sacramentos

Não é equívoco equiparar os atos sacramentais de primeira eucaristia e crisma com as formaturas de ensino fundamental e médio. Nosso sistema não prepara para a vida, mas para o sacramento. A cada ano entregamos às comunidades mais um grupo de “sacramentados” com poucos “evangelizados”.

Nossas crianças não entram na catequese para serem evangelizadas, mas para fazerem a primeira eucaristia e a crisma. Um dos primeiros questionamentos dos pais ao “matricular” (até esse termo é o mesmo da escola) seu filho na catequese é: daqui a quanto tempo ele “faz” a primeira eucaristia? E depois da primeira eucaristia a grande preocupação é “fazer” logo a crisma.

O ideal seria não pôr esses dois sacramentos como meta final da catequese, mas sim como conquistas ao longo de um caminho que se inicie aos seis anos de idade, mas que não tenha obrigação de acabar.

A eucaristia, e toda a pompa que a cerca, se equipara à formatura do ensino fundamental; a crisma à do ensino médio. E a penitência é uma obrigação chata que aparece antes de uma e outra.

O modo como levamos nossas crianças a ter seu primeiro contato com o sacramento da penitência é que faz com que cada vez mais os jovens e adultos deixem de buscá-lo.

A catequese deve ser uma caminhada ininterrupta, onde o conteúdo é dosado de acordo com as faixas etárias e os sacramentos “oferecidos” nos momentos oportunos: a eucaristia por volta dos 12 anos, a crisma por volta dos 15. Quanto à penitência (confissão) não deve ser mais vinculada a esses dois momentos, mas tornar-se uma prática constante desde cedo, ou, conforme o Cânon 989 do CDC: “Todo fiel, depois de ter chegado à idade da discrição, é obrigado a confessar fielmente seus pecados graves, pelo menos uma vez por ano”.

Periodicamente, dependendo da disponibilidade dos padres da paróquia e do número de comunidades, o sacerdote poderia visitar os catequizandos e oferecer-lhes o sacramento da confissão. Essa prática, além de proporcionar um maior contato entre sacerdotes e catequizandos, vai fazer com que esses venham a entender e viver o verdadeiro sentido deste sacramento e a buscá-lo com mais frequência no futuro, pois, pela mesma prática, entenderão que não se trata apenas de um momento em que se conta pecados, mas de uma experiência de amizade e confiança entre padre e catecúmeno, que culminam na experiência da misericórdia de Deus.

Como disse, não tenho a solução, mas um grande passo para encontrá-la é reconhecer o que precisa ser corrigido ou eliminado, e fazer acontecer.


Autor: Anselmo José Ramos Neto